OS MECANISMOS BASILARES PARA A ECLOSÃO DA CRISE
A primeira bolha especulativa na história moderna ficou conhecida como “Tulipomania” ou “Febre das Tulipas”, datada de 1630 na Holanda. A Holanda no século 17, tendo como expoente sua capital Amsterdã, representava o centro nevrálgico das finanças internacionais da época, devido principalmente à longa tradição holandesa no comércio internacional através da Companhia das Índias Orientais e Companhia das Índias, que além de apoiarem o comércio internacional, agiam como braço do estado holandês nas regiões que atuavam, este que começava a amealhar territórios que viriam a formar um grande império colonial.
No caso das tulipas, muito apreciadas por sua beleza, passaram a apresentar forte demanda, propiciando a escalada de preços. Para se ter uma ideia da proporção da escalada dos preços, na Holanda da época, para comprar um só bulbo da flor, era necessário dispor de 24 toneladas de trigo. Assim, devido a esta enorme procura, surgiram os primeiros contratos futuros para a negociação dos bulbos das tulipas, possibilitando a compra antes mesmo da colheita destas. Em meados de 1637 os preços atingem seu pico, quebrando as bolsas de inúmeras cidades holandesas e consequentemente todo o mercado, dando origem a primeira bolha especulativa da história. O governo holandês se vê obrigado a intervir, sendo os contratos podres vendidos a 10% de seu valor, além de introduzir restrições à comercialização da flor. O número de falências anuais nas cidades de Amsterdã, Leyden, Haarlem e Groninga, somente no período de 1635 a 1637 mais que dobra. Apesar de que os especuladores na época terem arcado com a maioria dos prejuízos, a farra entorno da comercialização das tulipas deixou ainda sim a cidade de Amsterdã à beira da bancarrota, afetando a Europa e o mundo como um todo, já que este no período era profundamente dependente e influenciado pelos europeus.
A crise atual de 2008 não é muito diferente. O estopim da atual crise veio através de uma política de estímulos à economia por parte do FED (Banco Central Americano), que adotou um nível de taxa de juros básica da economia próximos à zero, tornando os custos dos empréstimos domésticos acessíveis a um maior número de pessoas, até para aquelas que não os poderiam pagar, conhecidos vulgarmente no mercado como “Ninjas” (No Income, No Jobs, no Savings).
Aliado a esta política de juros baixos praticada pelo FED, existia um excesso de poupança mundial, principalmente após a melhora da situação macroeconômica dos países emergentes passadas as crises cambiais da década de 90, passando de tomadores de recursos internacionais para emprestadores líquidos mundiais, sendo estes recursos então direcionados principalmente para o EUA e ao mercado imobiliário. Garantidas pelo governo americano, tais recursos eram então captados pelas duas grandes companhias de crédito do setor hipotecário, Fannie Mae e da Freddie Mac, que tornaram-se grandes tomadoras de recursos financeiros nos mercados doméstico e internacional, criando assim o sistema de hipotecas “subprime”.
Desta forma, o componente vital da engenharia financeira orquestrada no sistema “subprime” consistia no fato da constante valorização do imóvel, que era usado como lastro do próprio empréstimo, e graças à farta massa de crédito disponível, os ganhos hipotéticos se tornavam realidade, transformando-se em cotações de imóveis cada vez maiores.
Outro ponto importante é a chamada “securitização” dos ativos “subprime”. Tal securitização de baseava nos chamados “derivativos”, que são instrumentos financeiros que derivam de outros ativos, daí a razão nome. Os derivativos são basicamente os direitos de compra e venda de um ativo financeiro no futuro a um preço pré-estabelecido, que visa proteger o detentor do ativo de possíveis oscilações ou quedas bruscas dos preços. Tal mecanismo de proteção impetrado pelos bancos formou deste modo uma teia de alastramento desses ativos “lixo” por todo mercado financeiro não só dos Estados Unidos como global, sendo livremente negociados por bancos, seguradoras, financeiras e fundos de investimentos.
Um fator também primordial para o entendimento da proporção tomada pela crise financeira atual, a ponto de ser citada como a pior crise enfrentada pela economia global desde a Grande Depressão, consiste no fato dos desequilíbrios verificados nos balanços dos bancos entre o volume de dinheiro em caixa e o volume de dinheiro aplicado em empréstimos e em outros serviços financeiros. Toda instituição financeira no mercado de capitais opera “alavancada”, pois precisa fazer render (por meio de empréstimos, aplicação em ações e títulos) o dinheiro depositado de seus correntistas, além de seu próprio patrimônio. O problema verificado na crise atual consistiu na proporção com a qual estas instituições usaram esta ferramenta para auferir lucros e vantagens através deste endividamento.
Podemos resumir desse modo que, com os ataques terroristas de 11 de setembro e o consequente desaquecimento da economia, o FED adota uma política de estímulos à economia através do corte da taxa de juros para níveis próximos a zero, tornando os custos dos empréstimos domésticos acessíveis a um maior número de pessoas, até para aquelas que não os poderiam pagar. Aliado a essa política de juros baixos, os países emergentes haviam se tornado financiadores mundiais, sendo essas reservas direcionadas principalmente para o EUA e ao mercado imobiliário. Como os empréstimos captados pelas duas grandes companhias de crédito hipotecário, Fannie Mae e da Freddie Mac, eram garantidos pelo governo americano, estas se tornaram grandes tomadoras de recursos financeiros nos mercados doméstico e internacional, criando assim o sistema de hipotecas subprime. Este sistema se baseava na securitização destes títulos hipotecários, por meio de derivativos que eram livremente negociados por bancos, seguradoras, financeiras e fundos de investimentos. Com o aumento da taxa de juros para o combate a inflação e o consequente aumento da prestação, visto que o empréstimo era contraído com taxa de juros variável, culminam em uma inadimplência generalizada e um efeito dominó que resultou no estouro da bolha e na atual recessão econômica mundial.
Crises econômicas são uma característica intrínseca do capitalismo, e suas causas e efeitos não são inteiramente entendidos até hoje, outrossim, o modo pelo qual deve-se solucioná-las também serão sempre objeto de discussões políticas e teóricas. O capitalismo é um conjunto de dicotomias que juntas, formam um sistema intrinsecamente falho, mas que parece funcionar de modo racional. O problema com este pensamento é que por trás de todos os teoremas e formulas matemáticas se encontram pessoas, que nem sempre agem de acordo com a razão, por possuírem a fraqueza das emoções e dos sentimentos. Esta sim, talvez, seja a resposta para a pergunta tanto discutida porém sem resposta: O capitalismo, formado por indivíduos, está sujeito as mesmas contradições inerentes ao ser humano inventor do sistema. Por isso, será talvez, o porquê de funcionar tão bem, e inexoravelmente, tão mal?
Frederico C. Freyesleben